Vendaval no Sudeste: mortes, apagões e o impacto nas tecnologias — e os golpes que costumam surgir na sequência

Fortes rajadas de vento atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro na tarde de quarta-feira (29 de julho de 2026), deixando ao menos cinco mortos, centenas de milhares de imóveis sem energia e um rastro de destruição. As rajadas chegaram a 124,9 km/h no interior paulista (Itaporanga e Itaí) e 105,5 km/h no Aeroporto do Galeão, no Rio. Árvores, postes e muros caíram; metrô, trens e aeroportos foram afetados; e milhares de pessoas ainda enfrentam a falta de luz nesta quinta-feira (30).

Além dos danos físicos, o fenômeno expôs a fragilidade da dependência tecnológica nas áreas atingidas e abriu espaço para um tipo de oportunismo clássico em situações de emergência: os golpes.

Pessoa usando celular durante apagão – risco de golpes digitais após vendaval

O que a ventania afetou nas tecnologias

A falta de energia elétrica é o principal gatilho. No auge, quase 1,9 milhão de unidades consumidoras ficaram sem luz no Rio (Light e Enel). Nesta quinta, ainda havia centenas de milhares de imóveis sem energia (estimativas variavam entre 370 mil e mais de 500 mil clientes só no RJ). Em São Paulo, o número era bem menor, mas ainda expressivo em alguns pontos.

Isso interrompe ou compromete:

  • Internet e comunicação: Roteadores, modems e repetidores param. Mesmo quem tem plano de dados no celular sente a queda de qualidade das torres (muitas também dependem de energia ou de backup limitado). Chamadas de emergência, aplicativos de mensagem e sistemas de home office ficam instáveis ou inacessíveis.
  • Celulares e dispositivos: Com a luz fora, a recarga vira problema. Bancos de bateria (power banks) se esgotam rápido, e quem depende do celular para trabalho, PIX, autenticação bancária ou contactar familiares fica vulnerável.
  • Sistemas de segurança: Câmeras de vigilância, alarmes e fechaduras eletrônicas param ou ficam offline. Residências e comércios ficam mais expostos.
  • Pagamentos e serviços digitais: Terminais de cartão, caixas eletrônicos e sistemas de delivery param. Muitos estabelecimentos só aceitam dinheiro ou ficam fechados.
  • Infraestrutura crítica: Aeroportos (Congonhas e Santos Dumont tiveram impactos), metrô, trens e semáforos sofrem interrupções. Hospitais e postos de saúde dependem de geradores, que nem sempre cobrem tudo por longos períodos.
  • Trabalho remoto e educação: Quem depende de energia e internet estável para home office ou aulas online perde o dia (ou vários).

Em resumo: quanto mais digitalizada a rotina, maior o impacto imediato de um apagão prolongado.

O que pode ser afetado nas áreas atingidas

Nas regiões mais atingidas (capital carioca e Baixada, litoral e interior de SP, especialmente Baixada Santista e algumas cidades do interior), os efeitos se acumulam:

  • Queda de árvores e postes danifica a rede elétrica e dificulta o restabelecimento (árvores caídas sobre fiação exigem reconstrução de trechos).
  • Destelhamentos e desabamentos de muros (como o de Santa Teresa, que matou o ex-jogador do Botafogo Tássio Maia e seu amigo) deixam imóveis vulneráveis a novos problemas climáticos e a invasões.
  • Interrupção de transporte público e trânsito congestionado atrasam equipes de emergência e manutenção.
  • Comércios e serviços essenciais (farmácias, mercados, postos) operam com restrições ou fecham temporariamente.
  • Pessoas em situação de rua e moradores de áreas mais precárias sofrem de forma desproporcional (uma das mortes em Santos foi de um homem em situação de rua atingido por árvore).

A recuperação não é imediata. Em alguns pontos, a rede precisa ser reconstruída, e o retorno da energia pode levar horas ou dias, dependendo da extensão dos danos.

Golpes que costumam surgir após eventos como este — e os números alarmantes

Desastres e apagões criam terreno fértil para estelionatários. A pressa, o desespero e a falta de informação facilitam a ação de criminosos. Os padrões mais comuns no Brasil após tempestades, enchentes ou apagões incluem:

  1. Falso “técnico da Light/Enel” ou “equipe de restabelecimento” Pessoas se passam por funcionários das concessionárias, pedem para “verificar o medidor” ou “acelerar o retorno da luz” e cobram taxa ou pedem dados bancários/PIX.
  2. Golpe do “auxílio emergencial” ou “indenização rápida” Mensagens ou ligações prometem ajuda financeira do governo, da prefeitura ou da concessionária. Pedem CPF, dados bancários ou PIX “para liberar o valor”.
  3. Venda de geradores, power banks ou serviços de “conserto urgente” a preços abusivos Ofertas de equipamentos com entrega imediata ou “só hoje” com valores inflacionados.
  4. Phishing e links falsos SMS ou WhatsApp com “link para acompanhar o restabelecimento da energia” ou “cadastro para prioridade”.
  5. Falsos doadores ou “campanhas solidárias” Perfis ou grupos pedem PIX “para ajudar as vítimas”.
  6. Aproveitamento de dados de vítimas Criminosos coletam dados de afetados para tentar receber benefícios em nome deles (já houve prisões por esse tipo de ação após enchentes no RS e tornado no Paraná).

Estatísticas recentes que mostram a dimensão do problema

Os números oficiais e de pesquisas de vitimização reforçam o risco:

  • Em 2025, o Brasil registrou 2.261.055 boletins de ocorrência de estelionato — o maior número da série histórica. Isso equivale a 258 golpes por hora (cerca de 4 por minuto). O crescimento foi de 2,7% em relação a 2024 e de 429,8% desde 2018.
  • O estelionato por meio eletrônico (golpes digitais) saltou 20,6%, chegando a 346.753 casos.
  • Apesar do volume enorme, apenas 63.771 processos penais foram instaurados e só 4.819 pessoas foram presas por estelionato em 2025 — um cenário de alta impunidade.
  • Pesquisa de vitimização do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (com Datafolha, divulgada em 2026) aponta que 15,8% da população adulta (16 anos ou mais) relatou ter sido vítima de golpe ou perdido dinheiro pela internet ou celular no último ano. Isso corresponde a cerca de 26,3 milhões de brasileiros.
  • No primeiro semestre de 2026, indícios de fraudes financeiras ultrapassaram 9 milhões de ocorrências (alta de mais de 10% em relação ao semestre anterior). Celulares concentraram 78% dos casos, contas correntes 94% e o Pix foi usado em 85% das movimentações fraudulentas.
  • Os golpes mais relatados pelas vítimas, segundo levantamento citado no Anuário, são: clonagem ou troca de cartão (45%), golpe do WhatsApp (34%), falsa central bancária (31%), golpe do Pix (24%), uso indevido de CPF por SMS (13%) e leilões/lojas falsas (10%).

São Paulo lidera as taxas de estelionato no país. Em situações de emergência — como o vendaval atual —, o risco de tentativas aumenta porque as pessoas estão mais vulneráveis, com celular descarregado, internet instável e necessidade urgente de informação ou ajuda.

Como se proteger

  • Confirme sempre informações pelos canais oficiais da Light, Enel, Defesa Civil e prefeituras.
  • Não compartilhe dados pessoais, senhas ou faça PIX para “acelerar” qualquer serviço.
  • Desconfie de urgência excessiva e de ofertas “imperdíveis”.
  • Mantenha power banks carregados e, se possível, um rádio a pilha ou lanterna.
  • Em caso de suspeita de golpe, registre boletim de ocorrência e denuncie no Procon ou na polícia.

O vendaval de ontem mostrou, mais uma vez, que eventos climáticos extremos não afetam só estruturas físicas. Eles interrompem a vida digital, expõem vulnerabilidades tecnológicas e abrem espaço para quem tenta lucrar com o caos. Com mais de 250 golpes registrados por hora no país, a atenção redobrada nunca foi tão necessária.

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