Golpes nas eleições: não abra qualquer arquivo

Golpes nas eleições podem chegar disfarçados de vídeos, fotos, áudios, PDFs, links e mensagens aparentemente oficiais. Antes de abrir ou compartilhar qualquer conteúdo, eu prefiro uma regra simples: pare, verifique e só depois decida.

As Eleições Gerais de 2026 acontecem em 4 de outubro, no primeiro turno, e, onde houver segundo turno, em 25 de outubro.

Eu gosto de pensar que eleição termina quando a urna fecha. Porém, na internet, infelizmente, não funciona assim.

Antes, durante e depois da votação existe uma janela enorme para criminosos explorarem ansiedade, curiosidade, indignação e confiança.

E, neste ano, o problema ganhou uma camada nova: inteligência artificial. O Tribunal Superior Eleitoral regulamentou o uso de conteúdo sintético e estabeleceu regras específicas para materiais produzidos ou modificados por IA, inclusive com restrições próximas ao momento da votação.

Porém, existe um detalhe que considero ainda mais importante: nem todo golpe eleitoral precisa parecer sofisticado. Às vezes, basta um arquivo ZIP, um link falso ou uma mensagem com aparência oficial para colocar a vítima em uma situação complicada.

Golpes nas eleições começam muito antes do dia da votação

Antes de tudo, eu não esperaria o dia 4 de outubro para começar a desconfiar. O calendário eleitoral já movimenta candidatos, partidos, eleitores, pesquisas, propaganda e milhões de mensagens nas redes.

Nesse ambiente, uma mensagem pode aparecer dizendo que existe algum problema com o título de eleitor, uma convocação urgente, uma pesquisa obrigatória, uma suposta irregularidade cadastral ou até uma informação sobre o local de votação.

Além disso, o criminoso não precisa inventar uma história completamente absurda. Quanto mais próximo o golpe estiver de uma preocupação real do eleitor, maior tende a ser sua capacidade de convencer.

Por isso, se alguém enviar um PDF, ZIP, aplicativo ou link dizendo que você precisa “regularizar alguma coisa imediatamente”, eu não clicaria no impulso. Eu abriria o navegador por conta própria e procuraria a informação diretamente no canal oficial.

O TSE mantém o calendário e as informações eleitorais em seus canais oficiais, inclusive com as datas e procedimentos do pleito.

Golpes nas eleições também podem chegar em arquivos

Aqui está um ponto que considero subestimado: um arquivo não precisa parecer perigoso para ser perigoso.

Recentemente, o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo alertou para campanhas que utilizam engenharia social e arquivos maliciosos aparentemente legítimos. O governo também já documentou uma campanha que utilizava o WhatsApp para distribuir arquivos compactados contendo atalhos maliciosos.

Portanto, receber um arquivo de alguém conhecido também não significa segurança automática. Se a conta daquela pessoa foi comprometida, o criminoso pode estar usando justamente a confiança existente entre vocês para fazer você abrir o conteúdo.

Além disso, formatos compactados, atalhos e arquivos que exigem execução merecem atenção especial. Eu não trataria um ZIP recebido inesperadamente no WhatsApp como se fosse uma simples fotografia.

E existe uma regra que considero básica: se você não estava esperando aquele arquivo, não abra apenas porque veio de alguém conhecido.

Passos para verificar arquivos, vídeos e fotos antes de compartilhar nas eleições

Golpes nas eleições podem usar fotos e vídeos que parecem reais

Por outro lado, o problema não está apenas nos arquivos que podem infectar o dispositivo. Fotos, vídeos e áudios também podem ser usados para manipular decisões.

O TSE estabeleceu regras para conteúdos sintéticos produzidos ou modificados por inteligência artificial e prevê identificação explícita quando esse tipo de tecnologia for utilizado em propaganda eleitoral, além de restrições específicas para conteúdos sintéticos novos próximos ao pleito.

Na prática, isso significa que uma gravação mostrando um candidato falando alguma coisa não deve ser tratada automaticamente como prova de que aquilo aconteceu.

Eu já escrevi sobre esse problema no Escudo Digital no artigo Deepfake em 2026: como se proteger de áudios e vídeos falsos, mas aqui quero ampliar a discussão: durante uma eleição, o problema não é apenas descobrir se um vídeo é um deepfake.

Também precisamos perguntar quem publicou, quando publicou, qual é a fonte original e por que aquele conteúdo está chegando até nós justamente agora.

Uma foto verdadeira também pode virar uma mentira

Além disso, nem toda desinformação precisa fabricar uma imagem do zero.

Uma fotografia real pode ser colocada em outro contexto, ter sua legenda alterada, ser apresentada como se tivesse sido feita em outra data ou associada a um acontecimento que nunca ocorreu.

Por isso, autenticidade visual não significa autenticidade da história.

Eu sempre considero contexto tão importante quanto a imagem. Uma fotografia pode ser genuína e, ainda assim, a mensagem que a acompanha ser completamente falsa.

Durante uma eleição, esse cuidado fica ainda mais importante porque uma imagem emocionalmente forte pode ser compartilhada milhares de vezes antes que alguém descubra que ela é antiga ou foi retirada de outro acontecimento.

Golpes nas eleições exploram principalmente a nossa pressa

Entretanto, existe uma característica que aparece repetidamente nos golpes digitais: urgência.

“Compartilhe agora.”

“Não deixe para depois.”

“Seu título será cancelado.”

“Olha o que o candidato acabou de falar.”

“Isso precisa chegar em todo mundo.”

“Abra o documento antes que expire.”

Essas frases têm algo em comum: tentam impedir que você pense.

O Ministério das Comunicações alerta justamente para esse mecanismo no phishing, técnica de fraude que pode usar SMS, e-mail e aplicativos de mensagens para induzir a vítima a fornecer dados ou realizar ações.

Por isso, minha regra é simples: quanto maior a urgência, maior deve ser o tempo que eu gasto verificando.

O que eu faço antes de abrir ou compartilhar um conteúdo eleitoral

Antes de tudo, eu aplicaria um pequeno protocolo. Não é complicado e não exige ferramenta sofisticada.

  1. Eu verifico quem enviou.
    Se veio de uma pessoa conhecida, ainda assim observo se o comportamento daquela conta parece normal.
  2. Eu olho o formato do arquivo.
    Uma foto esperada é uma coisa. Um ZIP, executável, atalho ou documento inesperado é outra.
  3. Eu não clico no primeiro link.
    Se a mensagem fala de TSE, governo, banco ou qualquer instituição, eu procuro o site oficial manualmente.
  4. Eu procuro a fonte original.
    Um print de uma publicação não vale mais do que a publicação original.
  5. Eu verifico a data.
    Conteúdo antigo reaparece durante eleições com uma nova legenda e uma história completamente diferente.
  6. Eu procuro confirmação independente.
    Se a informação for realmente importante, outros veículos ou fontes oficiais também deverão ajudar a contextualizá-la.
  7. Eu não compartilho enquanto houver dúvida.
    Essa é provavelmente a parte mais difícil e, ao mesmo tempo, mais importante.

Se eu não consigo verificar, eu não compartilho.

Durante a votação, o cuidado precisa aumentar

Enquanto isso, no dia da eleição e nas horas imediatamente próximas, eu ficaria ainda mais atento.

O primeiro turno de 2026 será em 4 de outubro e o eventual segundo turno em 25 de outubro.

Nesse período, mensagens sobre resultados, urnas, votação, candidatos, supostas fraudes, locais de votação e decisões da Justiça Eleitoral podem ganhar uma velocidade enorme.

Além disso, o próprio TSE mantém um repositório de decisões relacionadas à desinformação eleitoral, incluindo casos sobre mensagens eleitorais não solicitadas no WhatsApp e uso irregular de inteligência artificial.

Portanto, não confunda velocidade de compartilhamento com confirmação.

Uma mensagem encaminhada por cinquenta pessoas continua sendo uma mensagem não verificada.

E depois da eleição? O golpe não necessariamente acaba

Depois que as urnas fecharem, eu não relaxaria.

Pelo contrário. O resultado pode gerar uma nova onda de mensagens sobre supostas fraudes, recontagens, decisões judiciais, denúncias, convocação de eleitores, segundo turno e mudanças no processo eleitoral.

Além disso, onde houver segundo turno, a disputa continua até 25 de outubro.

O assunto muda, mas a engenharia social continua a mesma.

O criminoso apenas troca a isca. Antes, pode usar “regularize seu título”. Depois, pode usar “olha o que aconteceu com a urna”. Em seguida, pode aparecer com “o TSE acaba de cancelar o resultado”.

A técnica continua funcionando se conseguirmos convencer a vítima a agir antes de verificar.

Como reconhecer um vídeo eleitoral suspeito

Por outro lado, eu evitaria aquela velha ideia de que basta olhar para os olhos, a boca ou os movimentos do rosto para descobrir um deepfake.

A tecnologia evoluiu.

O próprio TSE firmou, em agosto, acordo com a ElevenLabs para combater deepfakes de voz durante as Eleições 2026, incluindo mecanismos voltados a vozes de candidatos e autoridades eleitorais.

Por isso, o melhor detector continua sendo o procedimento de verificação, não a nossa confiança em perceber uma pequena imperfeição na imagem.

Se um vídeo provoca uma reação emocional muito forte, eu faria uma pausa. Procuraria a declaração original. Verificaria os canais oficiais. Procuraria a mesma informação em fontes independentes.

E, principalmente, eu não tomaria uma decisão financeira ou compartilharia uma acusação grave baseado apenas em um vídeo recebido no WhatsApp.

O WhatsApp merece atenção especial

Além disso, o WhatsApp merece uma regra própria porque mistura comunicação pessoal, grupos familiares, trabalho e circulação rápida de arquivos.

O governo brasileiro já documentou campanha de malware usando contas comprometidas do WhatsApp para distribuir arquivos infectados.

Isso demonstra algo importante: o criminoso não precisa criar uma relação de confiança do zero se conseguir sequestrar a conta de alguém que você já conhece.

Por isso, vale também proteger a própria conta. No Escudo Digital, expliquei em detalhes por que a autenticação em dois fatores ainda é uma das defesas mais importantes contra o roubo de contas.

E, se o ataque vier por link, vale revisar também o nosso guia sobre phishing e as principais formas de identificar o golpe.

Se eu já abri o arquivo, o que faço?

Primeiramente, eu não entraria em pânico. O pior caminho é continuar interagindo com o conteúdo para “ver o que acontece”.

Se você abriu um arquivo suspeito, clicou em um link ou forneceu credenciais, interrompa a interação e, dependendo do que aconteceu, troque as senhas comprometidas usando outro dispositivo confiável.

Além disso, se houver suspeita de comprometimento da conta, revise sessões ativas, ative autenticação em dois fatores e observe movimentações financeiras ou alterações inesperadas.

Quanto mais cedo você interrompe a cadeia do golpe, menor tende a ser o estrago.

Se houve perda financeira ou exposição de dados, preserve prints, links, arquivos e horários. Essas informações podem ser importantes para investigação e registro da ocorrência.

Principais pontos

Arquivo inesperado não deve ser aberto só porque veio de alguém conhecido.

Foto verdadeira não significa história verdadeira.

Vídeo convincente não significa declaração autêntica.

Mensagem encaminhada não é fonte.

Urgência é uma ferramenta clássica de engenharia social.

Antes de compartilhar, eu verifico.

E, acima de tudo, eu manteria uma regra que combina perfeitamente com a filosofia do Escudo Digital: se tiver certeza, duvide; na dúvida, não faça.

Conclusão

No fim das contas, eu não acredito que vamos vencer a desinformação eleitoral tentando transformar cada cidadão em perito em inteligência artificial.

Isso seria irreal.

O caminho mais eficiente é outro: criar o hábito de parar antes do clique.

As eleições de 2026 terão regras específicas para conteúdos sintéticos, plataformas estarão sob pressão para combater desinformação e instituições como o TSE estarão ampliando mecanismos de proteção do processo eleitoral.

Mesmo assim, existe uma parte dessa defesa que nenhuma plataforma consegue fazer por nós.

É a decisão de não abrir, não acreditar e não compartilhar imediatamente.

Porque o golpe pode chegar em forma de vídeo. Pode chegar em uma foto. Chegar em um áudio. Ou em através de PDF. Pode até chegar de alguém que você conhece.

Mas, se eu tirar a pressa da equação, o criminoso perde uma das armas mais importantes que possui.

Assinatura

Bruno Bastos Nunes
Especialista em cibersegurança e fundador do Escudo Digital.

Referências

  1. Calendário e datas oficiais das Eleições 2026. Publicação de 2026.
    Calendário oficial das Eleições 2026 — TSE
  2. Regulamentação de inteligência artificial e conteúdo sintético nas Eleições 2026. Publicação de 2026.
    Regras para uso de IA nas Eleições 2026 — TSE
  3. Acordo com ElevenLabs para combater deepfakes de voz. Publicado em 06/08/2026.
    TSE e ElevenLabs contra deepfakes de voz
  4. Alerta sobre malware distribuído pelo WhatsApp. Atualizado em 13/04/2026.
    Alerta sobre malware utilizando WhatsApp
  5. Orientação sobre phishing e tentativas de fraude por mensagens. Publicado em 14/07/2026.
    Como identificar tentativas de phishing — Ministério das Comunicações

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